domingo, 26 de abril de 2009

Interferência

O momento que antecedia o entrar na igreja de cruz ao alto,
Em frente e no início do ritual,
Enchia-me a mente como a humidade a atmosfera antes da tempestade.
Sentia o ritual como algo solene, com um sentido velado cheio de sentido,
Que só o padre conhecia.
A alienação fascina, o desconhecido como a fantasia
Alimentam-nos a alma de criança em corpo de acasalamento.
A cruz de madeira e eu a segurá-la como se fosse gente!

(Ah, orgias: tudo ao molho e fé no caralho!)

Domingo, de manhã cedo, em jejum, assentam-se os cabelos
Com água como a benta da entrada da igreja, mas limpa.
O sol dizia que era Domingo e sentia-se o dia diferente dos outros.

(Náusea: na manhã de Natal de ressaca dentro da cabeça
E uma vez mais, o corpo dentro do outro!)

A alma refrescava-se, sentia-se dentro algo renovado,
Mas igual tudo, roupa velha acabada de lavar,
Ilusão de crer, cegueira feliz de sentir dentro o impossível.

(Ah, o alívio apressado de uma prostituta intelectual,
Tão reconfortante no ego e na carteira!)

Vestido de branco, mas de outro, entrava de cruz ao alto na porta principal,
Seguido de uma aurea que nunca existiu,
De amigos de andar por ver e eu com eles, por ser.
O ritual começa estéril, inútil, mas essencial e vital para a vida de quem o necessita.
O aroma da cera das velas e do incenso no ar... cheira a funeral e baptizado,
Entre a vida e a morte, o pecado e a absolvição,
O ascetismo cínico e a libertinagem sincera,
O admirável e o condenável...
Muros de pedra grossa, erguidos na linha entre a liberdade e a impossíbilidade dela.

(Ah, matar as tardes com vinho do porto e suores femininos
Até à morte do momento pelo excesso de carne!)


26-04-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Alicerces de Ser

Tento encontrar-me fugindo dos que me aproximam ao original.
Busco onde nunca pisei, porque acredito que o que sou,
Não é o que fui.
Quero inventar-me sem me saber.

É impossível que o perfume que nunca cheirei,
Me faça regressar aonde nunca estive.

Despi-me das roupas tradicionais
Para envolver o corpo com outros trapos.
Se quero regressar,
Já não me serve a roupa.
Se quero sentir a pele,
Está coberta de insensibilidade.

Quando regresso, não sei qual deixe dominar-me
E representar o corpo mais eu.

Terei ainda a mesma cor de olhos
Daquele de cabelo mais claro e de alma maior e mais limpa?


22.04.2009

Helsínquia

João Bosco da Silva

Negação

Perdido entre pensamentos coloridos
De mortos valiosos no nada,
Rodeado de formas sentidas de dentro para fora,
Deslumbrado pelo aborrecimento do maravilhoso
Simplesmente humano e possível,
Sinto palpitar a minha mais selvagem imaginação,
Incapaz de qualquer tipo de arte.

As obras humanas que se me atravessam
Na linha do desejo, de olhares penetrantes,
Excitam-me mais o sentido da vida.

E tudo são sublimações, mastigações, frustrações, negações,
Emoções quando não nos ocupam as sensações.

E tudo é tinta, pedra e tecido,
Distante e frio, humano de interior,
Filhos da companhia solitária...
(E elas passam de olhos vivos e fogo sempre aceso.)

Afogo-me no mar de beleza multicolor
E sinto que valeu a pena.
Atravesso a cascata do maior prazer
Sem molhar a minha pele que pede
O que a consciência lhe nega.


21-04-2009

Paris

João Bosco da Silva

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Foda na Aldeia

No lameiro verde de frescura, rasgado por agueiras,
Encostado a uma macieira sardenta de maçãs vermelhas,
Com as vacas tetudas a pastar,
Estou completo como ejaculando dentro da prima afastada,
De mamas sempre mais próximas,
Lá da aldeia.

Dentro de um palheiro aprende-se mais da vida que vale a pena.
Entre palhas e cabelos,
Beijos e picadas nas nádegas,
Nádegas e o mugir de vacas no estábulo ao lado,
Sabe a vida a vida real e original.

Na festa do verão, quem está é novidade
E o velho moinho une corpos,
Como um templo une almas... pão.

Se há carro, monta-se nela nele,
Enquanto os tractores, quase nos acariciam
Com o flagrante que apressa a descida do leite
No leito encharcado de fertilidade.

Espreme-se o leite nas tetas
Para que no domingo de manhã,
Não haja anúncios de falsas uniões.

Na aldeia sente-se a existência
Como era antes de existência ser...
Não se vive por nada,
Vive-se porque sabe bem.

Isto pode ser masturbação intelectual, mas...
Sabe bem como dar uma Foda na aldeia!


Rantasalmi – Savonlinna

09-04-2009

João Bosco da Silva

terça-feira, 7 de abril de 2009

Um Baloiço na Lua

Será para sentir um pouco da minha alma
Dentro delas, sedentas de algo mais... ?
Entro e saio e de alma nem rasto.
Só sente o que o corpo lhe manda que sinta,
Isolada nela, cega que conhece o mundo
Por mensageiros que não ouve.
Se pede ao corpo que sinta
É para sentir pensando que sentiu.
No corpo nada dura.

Abrem-se os olhos e o mundo existe,
Fecham-se e todo ele entra dentro de nós,
Irreal, incompleto, remendado pela imaginação.

Entro em ti ou nela,
E o estremecimento final é o mesmo:
Uma sacudidela forte de cão molhado,
Secando o meu corpo da água que me incomoda.
Ando todo o dia com água no pelo,
Desde que acordo e me cai o dia em cima
E me arrasto por ele,
Encharcado de mim.

O mundo era maior
Quando os limites do meu mundo
Me cabiam fora dos limites da imaginação.
Tudo podia ser isto ou aquilo,
Isto e aquilo, nem isto nem nada...tudo!
Limitei a imaginação com a realidade!
A mão pequena agarrava mais mundo
Quando de mundo tinha menos.
A mão cansada apenas pó leva
Dos lugares por onde passou.

Agora mãos femininas, umas suaves,
Outras duras e brutas,
Agarram-me e fazem-me livre,
Livre de um pouco de mim que lhe enche a boca
De palavras que nunca serão ditas.
Não sou feliz no momento,
Não sinto e é tudo;
Anulo-me no corpo de alguém,
Limitado no meu, sem tédio...
... Dou uma volta no baloiço da Lua.


07-04-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Intragável

É imposível, mas eu caminho, sobre este pântano
De lama, ou água suja, não sei...
Tudo é um meio-termo, um ser não ser,
Um amar e não querer, um desejar para o esquecer.
Tudo se perde quando caminhamos,
De pensamentos no alto do descontentamento sem razão.
Caminho só, sem mão para o que o mundo me tira,
Seco-me de tudo e sou eu, seco, sou eu inútil e vazio,
Outra vez esperando algo de fora, apesar de disso tentar fugir.
Não consigo partir para não regressar,
Pelo menos se levo o corpo comigo,
Nem consigo ser sozinho, pede-me outros...
Dispo-me e deito-me enquanto a neve descongela,
Arrefeço, acordo e visto de novo quem sou,
Quem digo ser e o que nunca ninguém vê.
Vou por aí, em busca de nada,
Apenas o desperdiçar de momentos
Sem que sejam chupados por outros.
(A solidão é o maior dos egoísmos.)
Não encontro em mim influências,
Não imediatamente após o acordar tardio
No despertar de tédio que se seguiu à noite vazia.
Sou puro e cru: intragável!
Por isso me vomito semidigerido por uma fome cansada.
Fecho os olhos e vejo mais na escuridão do meu interior cego.
Fecho os olhos e não encontro o sono que me compreenda,
Me acolha e me deixe não ser para o sempre de um momento.


06-04-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Rua do Almada revisitada

De uma recordação recente te vejo como antes de te conhecer,
Renovada na tua antiguidade suja e escura.

Apago passos com passos para o esquecimento
E fecho em mim mais uma loja
Que já não sei se existiu em ti ou em mim apenas.
Encolheste mesmo que eu não tenha crescido
E tornaste-te familiarmente estranha
Como um primo que só se viu em memórias parciais.

Na sombra da tua igreja Neo-gótica,
Amadureci o meu ateísmo até não amargar mais,
Fantasiando horrores sexuais
Com as acólitas da beleza fora do prazo.

Ouço a serenata, mas a quem, não me lembro.

Passo pela porta aberta a todos,
Mas já não tenho a chave.
(Quem ocupará aquele espaço
Onde estou noutro tempo passado?)

Rio-me com dupla nostalgia
Ao passar pelo Pessoa de cem escudos
Numa das muitas lojas que o vendem por outro valor.
(e o valor que temos nunca é o que valemos.)

...e estou longe!
Perto do tempo da recordação
Em que recordei memórias facilitadas pelo espaço...
Hoje longe, aqui longe... (sempre as duas coordenadas!)

E quantas vezes por ti passei na companhia dela,
Ou regressando de estar com ela,
Quando o amor para existir
Tinha que ser tudo menos o verdadeiro, único e animal.
(quantos prefácios de orgasmos existencialistas
ficaram sem as palavras do corpo!)
Trazes-me o absurdo de amar ideias,
Mas deixei de crer no que os sentidos não tocam,
Ou quero acreditar que apenas sou fiel
À razão dos sentidos.

Tinha demasiado espaço em branco
No meu caderno de linhas
Para as tuas verdades caóticas
Que me feriam a imaginação de quem nunca viu com o corpo.

Miséria deixou de ser apenas uma palavra
Aprendida na segurança rural,
Tomou corpo, cheiro a sarro,
Actos desesperado contra quem não está na pele picada e pedinte
De uma fome pior que a real.

Em ti restos de amor mais sincero e directo,
Por ti os recipientes vazios de uma descarga existêncial
Sem finalidade e por isso real como a vida.

Quantos regressos a mim
Quando regressei a ti após uma noite
Tão vazia dos outros e de mim!

A partir de ti parti para um mundo desconhecido,
Onde conheci a condição humana
Entre os seus problemas mais reais de carne.
Aprendi a enfrentá-la, a dos outros,
E uma vez mais, uma palavra, uma ideia,
Tomou forma à minha frente,
Eu vestido de branco e ridículo
Perante a sua inelutável veste negra...
...custou, mas tornei-me estéril, agudo,
mais um instrumento de adiamento.

Sou tu, mas movo-me
E em ti se movem...
...uma variedade incoerente
Desde a loja russa ao cão que fuma.


01-04-2009

Rantasalmi-Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 31 de março de 2009

Primavera?

O gelo que cobria os lagos abre-se
Revelando-os, vibrantes de vida velada.
Há humidade no ar e as pupilas,
Antes dilatadas, escondem-se atrás das pálpebras,
Tímidas do calor azul, adivinhando o verde.
O húmus molhado, geme a cada passo
Sobre ele, as gaivotas procriam,
Ejaculando no ar um chinfrim ensurdecedor.
O vento baloiça as árvores e plantas menores
Numa masturbação fertilizadora.

Encerro-me em casa, escondo-me
Da Primavera e escrevo isto,
Fingindo um ritual de acasalamento
Feito de dedos e tinta,
Sons mudos para os olhos.


31-03-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 30 de março de 2009

Longe de estar perto

Cansado de nada, de estar em todo lado
Em mim e em lado nenhum na realidade.

Caminho nesta praia em direcção a mim,
Ao que me ficou atrás e nunca fui.

Daqui não sairei, desta ilha, minha...

(Tantos reinos perdidos, reis esquecidos,
Poder limitado pelo verdadeiro poder
Das regras universais...)

Ai que sou tão deste tamanho!
Ai que me tenho todo na palma da mão,
Entre um punho fechado e velado,
Entre o contorno ósseo e a cobertura rosada
E nada mais!

Que longo nome!
Descrevo, descrevo-me sem imagens,
Mas nunca estou.

Condenação a de ser para mim,
Ser todos os outros que não sou
Para os outros que não sei quem são.

De onde e para quê?
Quem e porquê?

Deixa-me dormir no entardecer,
Que não quero fechar os olhos na escuridão.


30-03-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 29 de março de 2009

Deo gratias

Despejado!
Não criado ou parido,
Somente caído do nada
Que não aceitou a minha inexistência.
Ocupava demasiado espaço para não ser,
Agora ocupo muito pouco para quem é.

Passam vidas por mim
E só me vêem o que eu não vejo
Por estar de costas.

Despejaram-me aqui,
Eu verto-me por aí, aos poucos,
Até à eternidade...

...na hora da nossa morte. Amén.


22-03-2009

Rantasalmi

João Bosco da Silva

sábado, 21 de março de 2009

Sem sabor


Contra mim, isto...
Às vezes falta o sabor,
A mulher é para passar,
Nada se quer com o amor,
Nada a fazer, só rimar.

Não se encontra o fundo
Após muito se pensar.
Não se possui o mundo
Após muito viajar.

Quando a rima custa mais
Que um qualquer pensamento,
Perde-se aquele filho
Antes de nenhum casamento.

21-03-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Desperdício de Ócio

Uma praia entre um parque e umas termas,
Dentro de alguém que não está.

Andorinhas regressam de onde não se conhece,
Mas quem hoje as vê de olhos fechados,
Não as sente conhecendo o tal lugar.

Perde-se a transparência nos anos,
Perdem-se os sonhos,
Esquecidos,
Reprimidos,
Realizados,
Encolhemos a cada um que perdemos.
Fomos tão grandes antes deles
Nos tocarem a motivação consciente!

Sonha a vida acordado
Que na eternidade descansarão
Os que tu és.


21-03-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

Um Dia da Árvore que ficou Além

Passam por mim, estranhas e alheias,
As minhas memórias de outros
Que morreram, neste que morrerá.
Desejo ser um cadáver vivo
Neste corpo prostituído pelo tempo.

Não me reconheço quando me penso
E me recordo. Antes água,
Agora sedimento, mal humedecido,
Quase lama sem poder ser
Coisa nenhuma.

Passeio por um passado não meu
E eu com saudades do que não é.

Lembro lágrimas que não choro
E sinto o sal mal desperdiçado.

Tudo foi como uma árvore que se
Plantou, no Dia da Árvore
Da criança que não acredito ter sido,
Ritual, meio sem fim,
Como todas as mulheres como noites,
Mas com a duração entre um olhar
E um orgasmo no vazio
De ninguéns nunca nascidos.

De que serve o livro que ninguém leu,
A um morto que à vida ainda pertence?

Os anos passam, mas só imagens ficam
E dessas...
Essas precisam olhos para se mostrarem.


21-03-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 15 de março de 2009

Interjeicão de um Pensamento e Mijo na Cabeça

Não conheço o meu tamanho,
Mas tento medir-me por palavras
Como um cego que tenta medir o tamanho das cores.

...pensamentos, palavras, actos e omissões
E só nas omissões foi cometido pecado,
Contra as palavras que nunca se tornaram actos
E se perderam nos pensamentos de um que se esqueceu.

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Como quando era estudante
E a vontade de mijar vinha mal entrava na sala
Logo após o intervalo.

É isto o que isto é,
Um jorro de mijo pelos olhos adentro,
Palavras salgadas e quentes,
Excitantes para os preversos,
Porcas para quem tem olhos que toleram pouco
E não vêem além do nariz.

Escrevo quando estou apertado
E a ureia filtrada dos meus dias,
Não se acomoda mais na minha bexiga cerebral.



Rantasalmi

15-03-2009

João Bosco da Silva

quinta-feira, 12 de março de 2009

Nem Sempre Há Nuvens no Horizonte

Sentado numa das poucas manhãs que são minhas,
De café em punho e sol a vestir-me os sentidos de raridade,
Sinto-me mais completo que um saco cheio de nada.

Sem mais desejos que o de sorver a goles lentos o café forte
Que me acorda para o dia sem promessas,
Encaro a luz que me faz contrair a pupila
Como o tempo que me faz contrair a vida.

Dilate-se o peito e multipliquem-se os encontros com a felicidade!

O branco cinzento dos dias passados
Parece hoje branco verdadeiro,
Prenhe de beleza estéril e desolada esperança encoberta.

Hoje tenho vontade de viver!
Acordei outro que não aquele com quem me deitei.
Gosto deste de pouca dura...
As nuvens brevemente se cruzarão com o sol,
O café está acabado, a chavena já está fria
E o mundo já me chama aos meus deveres
Que não estiveram incluídos no contrato para a vida,
Assinado antes de ter dedos para isso.


12-03-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 9 de março de 2009

"Os Poemas De Ninguém"

Os Poemas de Ninguém estarão brevemente em livro e por essa razão, os poemas editados em livro foram removidos do blog. Obrigado aos leitores, espero que continuem a ler os que aqui passaram em papel e os novos que surgirão.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Relatividade

E se pudesse recomeçar, ou continuar onde desisti,
Ou onde perdi o que não tive forças para segurar,
Ou me cansei, ou me aborreci?
De nada valeria a pena, mesmo que isto que sou,
Tenha algum tamanho ou peso, que ninguém mede ou sente.

“Lembras-te”, pergunto por vezes estupidamente,
Como se estivesse a convocar uma memória comum.
Talvez se lembre da imagem que tenho dentro de mim,
Mas o antigo inquilino deixou-a quando se foi,
Não é minha, não me lembro e invoco-a falsamente hoje,
Como se o hoje fosse o prolongar desse ontem longínquo.

As minhas memórias de infância são tão falsas
E tão mal falsificadas que me vejo nelas,
Como uma terceira pessoa,
Sendo aquele que hoje as vê dentro,
Um fantasma num espaço somente interior,
Reflexo brumoso de um espaço perdido na realidade do tempo.

Detenho-me e encontro-me sempre como uma memória presente,
Nunca me encontrando no momento,
Como nunca consigo agarrar punhados de água.
O que sou, nunca sou o de agora,
Sou a recordação do que há instantes fui.
Tudo o resto é um espectro que flui
E deixa atrás a sua marca física, numa alma cerebral.

Tanto tenho errado, tanto tenho desejado, rejeitado e destruído,
Nunca sendo eu o responsável do momento!
Quanto do que eu criei foi o melhor que poderei
Alguma vez ter criado, só por ter morrido o único capaz de se igualar
Ou de se ultrapassar!

E com isto, sem o querer, mas provocando-o,
Fica aqui mais um registo de um defunto numa vida que perdura.


28-02-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Indefinível

A pele que me esconde, os olhos que me revelam,
Mas mentem na sua cor verde de quem se fala isto e aquilo,
Generalizando o irrepetível.
Os dedos que me acusam a presença
E se agarram a esta passagem como se fossem eu todo.
A boca que se busca em sabores alheios para se sentir
Mais acima no cego orgão que vê o que o mundo me mostra,
O que quero do mundo e o que do mundo não quero a todo custo.
Entre tudo, retalhos retalhados e repetidos,
Entre os eus que me povoam e os eus que sou nos olhos deles,
Não me encontro, nem me perco.
Existo como uma palavra escrita que a nada real corresponde,
Ou algo real que não é traduzível para nenhuma palavra.

(Vejo-os e invejo-os porque nunca me poderei ver assim.
Vejo-os e desprezo-os porque são tudo o que não há em mim.)

Os dias não deixam nenhum rasto,
Passam e logo se esquecem,
Como uma lesma seca, que não deixa no caminho percorrido
A sua marca viscosa.

A impressão nas minhas sinapses
É de pouca duração,
O que faz de mim um morto no amanhã,
Possuído por um outro nascido no acordar
Do meu corpo de sempre.

As mãos fascinam-me como se fossem outros seres,
Além de mim e da vontade.
Não fossem elas e não me fascinaria com o que elas fizeram,
Não fossem elas e eu nunca diria o que a voz não pode,
O que os olhos mentem e o que o corpo todo não sente,
Por estar limitado aos outros corpos.

Confesso-me inocente dos actos a que a vontade me obrigou,
Mas reconheço a culpa de todo o acto covarde de respeito à moral
Que os outros me tatuaram e não sei quem eles são por serem tantos
E nenhum em concreto.

Despeço-me de todos e de mim,
Esperando que o que amanhã me representar,
Seja merecedor da vida que não pediu.


27-02-2009

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Do suicídio não se ganham desilusões!

Do suicídio não se ganham desilusões!

01-09-2008
João Bosco da Silva
Savonlinna

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

En la cerveza la verdad – te quiero rubia!

Nietzsche defendia que se ama o prazer, não o objecto desejado. Eu por outro lado digo que se ama o prazer que o objecto “amado” nos proporciona. Se amamos alguém, não é esse alguém que estamos a amar, é o prazer que nos proporciona. Se ao estarmos longe do objecto amado, sofremos, não é por amor, ou saudade, mas por privação do prazer, da sensação que nos providenciava, é como um toxicómano a quem falta a sua “amada” droga.
Oh, mas é tão bom mistificar as coisas, torna-las espirituais, demasiado humanas, quando ninguém é tão humano tal se concebe o humano. Somos muito mais animais e menos racionais do que pensamos e inventamos ideias abstractas para nos elevar-mos acima da simplicidade animal que nos preenche.
Há quem ame, mesmo aquilo que o faz sofrer. Há gostos para tudo e há quem sinta prazer das mais estranhas formas, o que para um é doce, para outro é enjoativo, há quem goste do ácido, do amargo, da melancolia e da solidão...dá-lhe prazer.
Somos apenas uns egoístas viciados, dependentes das portas do corpo para deixar entrar aquilo que afinal dá alento à existência, não a vontade do poder, mas a vontade do prazer.
Porque não amamos algo cuja existência desconhecemos, nem odiamos? Porque nunca nos passou pela opinião dos sentidos. A razão é apenas algo que nos veste o animal que afinal somos. Não passamos de cães vestidos à procura de algo ou alguém que nos afague o pêlo escondido por baixo dos tecidos industriais.
Estranha lucidez selvagem se apossou de mim e me rasgou o disfarce sociocultural com que me foram vestindo para me ver ao espelho, nu... e o que vejo é um humano, um macaco pelado... em verdade, menos do que um dia foi.


João Bosco da Silva
16/07/2007

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Aforismos Intempestivos

Quando a erudição nos é apontada como defeito, estamos rodeados de ignorantes. Saímos como ser superior que somos e vamos para a companhia de quem é do nosso nível – nós próprios.

Quando o homem não vence como homem, torna-se besta violenta... iludam-se aqueles que pensam que o erudito não é capaz de maiores atrocidades que o pobre ignorante. “Partir-te-ei a mandíbula inútil, pois se não lutas com palavras, vou arrancar-tas para todo o sempre...levarei esse inútil osso como trofeu, já que falas com punhos.” Coragem de incauto!

Se a arte é uma perda total da razão, uma entrega à incoerência das palavras, ou um uso destas como prostitutas... não sou artista, sou filósofo. È a filosofia uma arte? Ou o oposto?

Racionalização? Não, é apenas a sublimação, não de frustrações, mas de um ser grande de mais para este mundo pequeno e ridículo que se julga não uma amostra insignificante, mas a população total do universo imensurável.


De onde sou? Onde pertenço? Quem me considera como um deles? Sou apenas do mundo, não daquele que eu conheço, mas daquele que me torna pequeno e sempre incompleto por maior que seja o meu esforço em me tornar universal.

Quem me inveja só pode ser inferior a mim! Eu não me invejo e com isto, ultrapasso-me.

Falas com punhos? Desculpa, mas não me dou a sensações dolorosas desse tipo. Traz-me uma mulher...aí, dar-me-ei a liberdades sensoriais.

Tenho pena... mas afinal, todos somos o que escolhemos ser. Afinal sou feliz pelas escolhas que tenho feito.

Invejem-me! Eu vos digo que sou um verme e com isto farei de vós algo ainda inferior... sois quase tudo se estais próximos do nada? Não? Então qual é o vosso objectivo?

O mundo seria muito melhor se os mentecaptos tivessem a felicidade de considerarem o suicídio como a única coisa útil que eles pudessem fazer pela humanidade. Suicidem-se, façam esse favor!

As minhas palavras são adrenalina? Não! São apenas caracteres que alguém toma por algo inteligível. É a cólera algo inteligível? Compreendeis o que digo?

Tenho pena... mas afinal, dá-me igual que não me considereis um de vós. Afinal sois pouco mais que algo... eu não sou tão exigente. Sou apenas.

Agradeço-vos! Muito obrigado! O esforço de anos é afinal recompensado, quando há quem tenha dormido e agora se sente violentado pelo sucesso. Asseguro-vos, não foi tão exigente como parece e só mesmo quem é uma pedra, inerte, não sucede.

Rio-me com ar de quem goza? Não! Apenas me rio... O resto acrescentais vós perante a vossa mísera condição de frustrados. Tenho pena... mas afinal...

Sou maior? Sou melhor?... Já vos tinha dito que me odeio? Se não sois melhores do que eu... pobre existência a vossa! Como não cedeis ao suicídio?

Somos do tamanho dos passo que damos... a minha sombra cobre-vos? Não temais em sair do vosso ninho.

Odeio tudo quanto esteja fora de mim. E se não o odeio, é porque posso entrar nele.

Tenho sono? Não! Estou apenas exausto de me tentar encolher para caber no vosso mísero espaço... como podeis ser tão pouco exigentes... convosco mesmos?

Pensar torna-nos infelizes... e não pensar de todo? Pedras! Antes ter dias angustiado que ter dias e dias a rolar pela existência até me gastar.

João Bosco da Silva

03:29 a.m.
21/07/2007